5 de outubro de 2010

Torta de All Star Cor de Rosa

Respirei profundamente e olhei em volta. Não conseguia ver nenhum inimigo, e ainda não sabia se isso era algo bom. Meu corpo todo doía, aquela luta estava durando tempo demais. Soltei um gemido e tapei a boca, me abaixando ainda mais e olhando novamente ao redor. Ao ter a certeza de que não via ninguém, me levantei e saí correndo, desviando de móveis e pessoas.

- Losina! – droga. Aumentei a velocidade e abri a porta, pulei no corrimão e desci os quatro andares escorregando. Não podia ouvir meu inimigo, mas mesmo assim não diminui a velocidade. Me arremessei contra a porta, chegando ao saguão.

- Ei, Losina! Volte aqui! – maldito. Como ele conseguiu chegar tão rápido, e sem passar por mim? Quebrei os saltos dos meus sapatos no chão, para correr melhor, e não parei até estar a cinco quadras de distância do prédio.

Entrei no primeiro café que vi, e logo pedi algo para comer. Em menos de dois minutos, estava comendo uma das melhores tortas de sorvete que já havia comido na minha vida. Derramei um pouco de calda quente de chocolate por cima e fiquei encarando-a, maravilhada. Precisava anotar o endereço daquele lugar.

A batalha agora estava terminada, e eu havia vencido. Todas as minhas dores foram sanadas ao primeiro pedaço de doce que tocou meus lábios. Mais uma vez, eu havia escapado do meu editor, o Grande Inimigo, e conseguira meu tesouro diário.

Até deu uma fome...

- Ei, Losina. Aqui de novo? – levantei meus olhos. Um jovem simpático com um avental me sorria amigavelmente. Para imitar meus olhos, minhas sobrancelhas se franziram rapidamente.

- Eu o conheço? – perguntei, arrumando os óculos na ponte do nariz. O garoto torceu o rosto em uma careta e suspirou.

- Você me pergunta isso toda vez que entra aqui, sabia? Sim, você me conhece. Desde que está trabalhando naquele... – ele franziu a testa, tentando encontrar a melhor palavra. Eu tenho pena dessas pessoas que não sabem se expressar. – lugar. – ele sentou-se na minha frente e apontou para a torta de sorvete. – Está boa?

- É a melhor. Você pode me dizer seu nome? Já disse que não o conheço. – ele coçou a cabeça, obviamente tentando achar as palavras certas novamente. Grunhi e espetei minha colher na torta. Quando a olhei, ela estava derretendo. Soltei um grito agudo, em pânico, e voltei a comê-la.

- Sou a Giovana. Lembra? – franzi meu rosto. Ela não parecia uma mulher. Eu parecia uma mulher mais do que ela.

- Lembrar do quê? Acabei de falar que não a conheço, Gabriela. – ela suspirou e se levantou quando alguém gritou algo como ‘garçonete!’. Garçonete era um bom nome, mas tinha certeza de que ela havia me dito que se chamava Geraldine.

Voltei a olhar para minha torta de sorvete e soltei outro grito de ódio. Agora, ela era praticamente um suco de creme e chocolate no prato. Raspei-a o máximo que pude com a colher e então levantei o prato, virando-o para o restinho escorrer. Quando não havia mais nada que eu pudesse aproveitar, lambi o prato e o deixei na mesa, me levantando lentamente.

- Losina? – ouvi Gloria me chamar. Saí correndo, ouvindo os protestos da mulher me seguirem por toda a rua.
Meus pés doíam. Olhei para eles e lembrei do triste episódio onde eu tinha arrancado os saltos. Para isso, eu sempre tinha sapatos de emergência. Parei num banco e abri minha mochila, tirando de dentro dela um par de All Star de cores diferentes. Troquei os saltos pelos tênis e joguei-os para dentro da mochila, fechando-a e voltando a andar. Àquela hora do dia havia muitas pessoas na rua, e nenhuma delas sequer olhava para mim. Isso me deprimiu mais do que qualquer outra coisa, então tirei uma cartola cor-de-rosa com lantejoulas da mochila e a coloquei na cabeça.


Agora sim, todos que passavam por mim me davam pelo menos um olhar de susto. Comecei a sorrir para todos, deixando meus olhos vesgos cada vez que era encarada. Estava assustando uma criancinha quando meu celular tocou. Suspirei com raiva e peguei o aparelho.

- Losina! – foi a primeira coisa que ouvi. Maldito. Havia me achado.

- Sim, meu bem? – perguntei com minha voz mais doce. Peter começou a gritar comigo, então simplesmente afastei o telefone da orelha e esperei o barulho acabar. – Eu sei. – falei. – Não vai mais acontecer. Não se preocupe, meu texto está pronto há horas. Está em cima da minha mesa. Não, não tente suicídio. Se você não tivesse perdido tempo correndo atrás de mim, talvez o tivesse achado antes! – sem dar bola para os gritos contínuos de Phillip, desliguei o telefone. Ora bolas. Como ele ousava duvidar da minha pontualidade? Só eu podia fazer isso. E o meu gato, quando ficava sem ração.

Outra criancinha, um garotinho, me encarava. Fiquei vesga para ele e o mesmo arregalou os olhos e aplaudiu. Torci o rosto e ergui as sobrancelhas. Crianças... Cocei a cabeça quando ele estendeu os bracinhos para mim, e ao ver que ele não os abaixava, eu me abaixei para ficar do seu tamanho.

- Você quer o meu chapéu? – perguntei para ele. Ele sorriu ainda mais.

- Sim!

- Que pena, é meu e eu não divido. – vi os olhos do garotinho perderem toda a luz e ficarem automaticamente nublados e chorosos. – Mas aqui tem um pirulito – ele pegou o doce e eu me levantei, deixando-o para trás e torcendo para não ser um dos meus pirulitos de ecstasy que eu tinha para caso de emergência.

Então meu celular tocou de novo.

- Losina, sinto muito, mas parece que uma... hm... alpaca comeu seu texto.

- Tá tirando com a minha cara.

4 comentários:

nedelande disse...

Muito bom Losina, acho que eu conheço esta torta de sorvete

Unknown disse...

Ainda bem que o Biancardine me mostrou esse blog, estava esperando suas histórias(e da Dutra também, mas essa só sai 6º).
Dei muitas risadas...muito bom...ei, de quem é a alpaca mesmo?

CaPeLo disse...

Do Antonelli.
Conto do caralho ju! Parabens :)

Nede Losina disse...

Gostei Ju!!!
parabéns!
aguardamos ansiosos a sequência.

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