28 de dezembro de 2010

Erva de Gato

Uma noite comum. Havia duas caixas de bombons empilhadas do lado do sofá, um montinho branco que parecia respirar e um cachorro preto babão cheirando um gato ruivo e gordo. Minha televisão estava ligada, mas eu nem estava prestando atenção. Afinal, estava trovejando. Eu estava preocupada demais em cobrir minha cabeça e aumentar o volume da música para prestar atenção na TV.
Eu devo ter dormido em algum momento, pois quando me mexi novamente, o sol brilhava palidamente. Me mexi, derrubando a coberta e o iPod no chão. Cambaleei até o banheiro, onde tomei um banho e me vesti para sair.
Como eu merecia um prêmio, afinal, passei uma noite de trovões sozinha, sem ligar para ninguém, passei em uma banca de revistas e comprei a última revista do Lanterna Verde e então me dirigi para uma sorveteria.

Quando finalmente saí de lá, o sol estava escondido pelas nuvens. Ventava um pouco, e as ruas estavam quase vazias. Tremi, sentindo falta do meu antigo cabelo longo que me esquentaria um pouco. Passei as mãos pelos braços, tentando me aquecer.
Uma chuvinha fina começou a cair. O tipo de chuva mais molhado. Meu cabelo agora grudava no meu rosto, enquanto eu chapinhava, evitando desviar das poças que se formavam rapidamente. Os trovões podiam me destruir, mas eu simplesmente amava a chuva. Eu já estava cantarolando Singin’ on the Rain quando ouvi um miado baixo e arrastado.
Não pude evitar olhar. Havia crescido com diversos gatos, e aquele definitivamente era um miado do tipo sofrido. Havia um siamês magrelo em cima de uma lixeira. Ele miou outra vez enquanto eu olhava. Me aproximei dele rapidamente e afaguei sua cabeça.
- Não chore, neném – murmurei, pegando-o no colo e colocando-o de barriga para cima. – É, você definitivamente é macho, iria apanhar do—
- QUE PORRA É ESSA? – o bichano gritou, e eu o larguei.
- CARALHO – berrei, chutando-o instintivamente. Ele rolou no chão, miando de raiva.
- Bem... uma reação apropriada, eu acho – ele grunhiu, lambendo uma pata. Me aproximei dele e me agachei ao seu lado. Ele me encarou, seus olhos amarelos brilhando malignamente. Estiquei o braço e dei uma coçada na sua testa. – O que você está fazendo?
- Ah, ótimo. Estava preocupada que você fosse dizer se chamar Luna e me transformar na Sailor Moon. – ele sibilou de raiva. Dei de ombros. – Olha, tudo bem, calma agora. Você é um gato falante. Certo. Eu realmente devo ter exagerado no LSD que derrubei no sorvete, mas não vamos entrar nesse assunto. Quem é você e o que você quer? – o gato pigarreou, mas pareceu mais um ronronar.
- Eu sou o Diabo – ele disse, se sacudindo. Voou água para todos os lados, mas não fez nenhuma diferença, afinal a chuva continuava caindo incessantemente. – E quero sua alma.
- Simples assim? – perguntei. Ele fez que sim com a cabeça. – Pobrezinho – afaguei-o novamente e ele miou com raiva.
- Pare com isso, sua louca! – ele berrou, tentando eriçar os pelos. Caí na gargalhada. Por estar completamente encharcado, o movimento foi simplesmente falho. – Não, não ria! Porra! Por que todos são simplesmente tão complicados? – ele espirrou, me fazendo rir ainda mais.
- M-m-me desculpe – gaguejei, tentando secar meu rosto, o que foi totalmente inútil. – É só que... você é tão fofinho e desolado, e você espirrou... Simplesmente não pude evitar, mesmo que você seja o Diabo... – voltei a rir baixinho e o gato bufou.
- Tudo bem. Façamos assim. Você me diz o que quer em troca de sua alma e podemos ambos seguir nossos caminhos, ok? – olhei-o por alguns segundos e então peguei-o no colo e o abracei.


Ele rosnou, cuspiu e tentou me arranhar, mas só o larguei quando ele começou a sufocar.
- Você é tão fofo! – falei, afagando sua cabeça mais uma vez. Ele tentou me morder e eu recuei a mão. – Você me dá diabetes.
- Ah... ótimo, eu acho. Não que eu ache possível que você possa ter diabetes. Enfim. Quanto você quer pela sua alma? Um caminhão de doces? Uma sorveteria?
- Você pode ressuscitar os mortos? – perguntei, inclinando minha cabeça.
- Não – ele disse. Suspirei. Era óbvio que não.
- Então não tenho interesse em vender minha alma. – afirmei. Ele se sacudiu novamente, tentando se secar.
- É claro que tem! Todos têm. Tem que haver algo que você queira. Qualquer coisa, lembre-se. – ele piscou para mim. Um gato piscou para mim. Isso sim era assustador.
- Não consigo pensar em nada agora, gatinho. – cocei minha cabeça, olhando para o céu – Se fosse possível que nunca mais trovejasse, talvez... mas você não deve poder fazer isso também.
- Posso sim – ele afirmou, convicto. Olhei-o com desconfiança. Ele sorriu. Ou ao menos pareceu isso. – Tudo bem, talvez não cancelar os trovões, mas posso impedi-la de ouvi-los. Serve?
- Está ótimo – falei, sorrindo bobamente. Eu realmente não gostava de trovões. Naquele momento, perder minha alma não me parecia grande coisa. Mesmo assim, coloquei a mão na minha bolsa e puxei uma bola. – Ei, gatinho, quer a bolinha? – e joguei-a para ele. Ele a olhou calmamente, mas então seu focinho escuro se torceu.
- O que tem aí? – ele perguntou, tocando na bola de leve. Então recuou e pulou em cima dela, de um jeito bem felino.
- Erva de gato – falei, me levantando e saindo correndo. Podia vender minha alma sem problemas, mas nunca se sabe quando o Diabo pode resolver usá-lo de janta.

Nem mesmo o Diabo consegue ficar seco

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