Tontura. Rodopios. Visão turva. Cheiro e gosto de álcool, e um teto metálico olhando pra mim. Uma manhã comum, onde eu acordava bêbada em meu trailer (exceto pelo fato de que lá fora, o sol estava se pondo). Pensei em sentar pra tentar melhorar a ressaca, mas bati a cabeça na parte de baixo da mesa acoplada há uma das paredes do trailer. Senti a dor de cabeça aumentar e amaldiçoei o móvel. Meu gato riu, em cima dele.
- Bom dia, luz do sol. – Ele ronronou sarcástico. Siameses são animaizinhos bem sádicos quando querem. Ou quando têm o diabo no corpo.
- Vá se foder, gato maldito. – O cumprimentei.
- Ah, querida, você só aumenta o meu ego. – Ele riu-se de um jeito que apenas gatos encapetados riem e levantou-se, pulando para o chão e balançando sua cauda negra no ar.
- Me deixa em paz, Mike. Vai dar uma volta. – Desviei da mesa e tentei novamente me levantar. Bati sonoramente a cabeça na mesa, mais uma vez. Ao que tudo indica, calcular as coisas quando se está alcoolizado nunca dá certo.
- Pare de me chamar dessa forma ridícula, mortal. – Ele eriçou os pelos, parecendo ameaçadoramente... fofinho.
- É seu nome felino. Aceite e conviva, bichano. Agora me deixa em paz.
- Você nunca estará em paz. Vendeu-me sua alma por cigarros. Você irá ao inferno.
- Tá, tá, foda-se. Me vê um maço de Black de menta e vai pro seu canto. – Estendi a mão ao ar, desistindo de levantar-me, enquanto o gato materializava os cigarros em minha mão e amaldiçoava-me inutilmente.
- Ah, que desperdício de meu tempo infindo. – Ele pronunciou em um miado rouco, e sentou-se, me encarando com desprezo.
Mas eu estava ocupada demais para dar atenção ao mau olhado de belzebu. Lembrava-me naquele instante, olhando para minha novíssima Glock, um revólver reluzente e funcional, que o Natal havia passado. E a virada do ano estava realmente próxima. E eu, muito bêbada, nem sequer havia me lembrado. Mas sabem como é... A vodka apaga grande parcela de sua memória. Principalmente a parcela referente a datas comerciais com desculpas religiosas mal explicadas, ou míticas e mal calculadas passagens de horas que possam representar alguma diferença cronológica no funcionamento do fuso mundial. Isso e qualquer coisa que você faça enquanto bêbado.
Enfim, percebendo minha indiferença para com as fluflurisses natalinas e toda essa merda comemorativa, me dei conta que nem sequer tinha dado atenção a meus companheiros de serviço, os únicos que eu conhecia e que sabiam de meus crimes por ali, o que indicava que...
a) Eu precisava eliminá-los.
b) Eu devia ser agradável e tentar socializar, e blá blá.
Arrastei-me da mesa pra poder levantar e dirigir até o escritório.
Uma batida de cabeça, duas doses de vodka, três delegacias e quatro cidades depois, eu estacionava de frente ao prédio do escritório do Contos de Bar, o local onde eu trabalho. Deixei Mike, o diabo, tomando conto do trailer e tomei o elevador (um tanto receosa, mas segura o suficiente, por estar armada) ao lado de uma alpaca. Uma alpaca muito bem vestida, se me permitem dizer, trajada uma finérrima faixa presidencial, de algum partido latino americano.
Acenei com a cabeça e o Señor Presidente retribuiu.
- Meh! – Foi tudo o que ele pode declarar a uma civil, sem o alvará de uma coletiva de imprensa apropriada.
Deixei o elevador entupido de merda de lhama xingando o maldito animal comedor de burritos e batentes de porta, com o revólver na mão. Paulo, o nosso editor, passava pelo corredor, e me ofereceu um sorriso amigável.
- Boa noite, Rocha! Presumo que tenha vindo entregar seu texto e...
- Cala a boca, babaca! – Levantei o revólver novo para a testa do bom rapaz, meu típico e carinhoso cumprimento. – Acabei de subir oito andares num elevador entupido de merda fresca e produzida em tempo real. Isso te parece uma boa noite, porra?
- Ah... eu... ham... – Paulo se afastava em passos rápidos, para que não corresse o risco de sofrer um traumatismo craniano com a aproximação desenfreada da arma para com sua testa. Só craniana mesmo, que o resto, ele já devia ter traumas demais.
- Pelo amor de alguma entidade divina ou macabra que você tenha crença ou não. Saia da minha frente, homem. – Eu continuava a avançar pelo corredor.
- E um feliz natal pra você também. – Ele encostou-se na parede e sussurrou baixinho, já acostumado a lidar com funcionários mentalmente instáveis ou inflamáveis.
Abri a porta do escritório e me deparei somente com meu colega Biancardine e as garotas, Losina e Dutra. Bianca, como eu prefiro chama-lo, tomava uma farta dose de Jack Daniels, sentado em sua mesa, de frente a seu computador com um sorriso sugestivo em seu rosto.
![]() |
| O computador de Victor Biancardine. |
Losina cantarolava contente a cativante e fagueira melodia de Seek And Destroy, enquanto Dutra desmontava a árvore de Natal (ou o que pareciam ser os restos mortais de uma, depois de um incêndio ou um estupro inanimado) num canto.
- Ah, oi Rocha! – Ela me cumprimentou com um sorriso simpático, acalentando meu pobre coração que antes revirava-se em ânsia e merda de lhama. Ou ele ou o meu estômago, nunca sei dizer.
- Alô. Eu estava passando por aqui e me lembrei que nem sequer dei as caras no Natal, e provavelmente farei o mesmo na virada do ano. Julguei que isso poderia ser importante pra alguém e vim conferir se não chateei ninguém. – E dei de ombros.
- Foda-se o Natal e essas merdas. – Foi tudo o que o Biancardine disse.
- Bem, não fizemos nada em especial, então, sem problemas. – Respondeu-me a Dutra, em concordância com a Losina.
- Poxa, nada? Certo, Natal é uma bosta, mas é sempre uma desculpa perfeita pra encher a cara e fazer merda em festinhas, sabem?
- É... não, não sabemos. – Losina pronunciou-se, seguida da Dutra. – E não bebemos também.
Biancardine revirou os olhos e completou com toda sua pompa, sensibilidade e estilo.
- Pff, maldita pureza e inocência cor-de-rosa. Pro inferno com elas. – Cuspiu de lado e virou um gole de Jack Daniels.
- VOCÊS NUNCA...?! Por Jah, que crime! – Eu clamei pelo deus da cultura rasta, perplexa. Me senti como um padre frustrado diante de uma questão nada ortodoxa de uma criança incrédula apontando na minha cara “onde está o seu deus?!”.
- Não precisa exagerar, Marina... – A Dutra falou em tom amistoso, levantando uma de suas sobrancelhas e cruzando os braços.
- Não, de fato. Mas vocês definitivamente precisam! – Guardei o revólver no bolso, convicta.
- O que quer dizer? – Losina encarou-me, tirando alguns doces muito suspeitos de dentro de sua mochila.
- Quero dizer que esse é o código Festa do Pijama. Faremos uma noitada, em honra ao Chanuka, as festas pagãs e ao incrível resultado da destilação de álcool!
- Ao Natal. – Losina corrigiu-me.
- Que seja! Vamos à noitada! – E abracei ambas as garotas pelos ombros, um tanto hesitantes. O que achei uma tolice, afinal... Elas teriam a mim, pijaminhas curtos, filmes variados, bebida de graça e uma noite inteira em claro em um trailer fora da jurisdição de 26 estados da América do Sul.
- De repente, eu comecei a ver vantagem no Natal. – Biancardine levantou-se, dando a impressão que gritaria algo como “dança do pênis” a qualquer instante. Fuzilei-o com o olhar e saquei meu revólver, o que o fez sacar o dele contra mim, em resposta.
- Você. Fica. Vá pro seu canto sujo, criatura imunda. – Acirrei o olhar negro para o rapaz, que parecia contrariado pela idéia de não estar incluído numa putaria em potencial.
Saí abraçada com as garotas, feliz e sorridente como criança em efeito de altas taxas de glicose no sangue. Elas pareciam encarar tudo como uma inocente reunião de colegas de trabalho. Mas era exatamente isso que eu precisava que elas pensassem. Mal sabiam que o diabo nos esperava. E que o inferno era pra lá de prazeroso, ao contrário do que aquele tal de livro sagrado e milenar parece querer cortar o barato.
No instante em quê passávamos pelo corredor, o Garcez, um dos colunistas que trabalham/moram/destroem o Contos de Bar saiu da sala de Paulo, o editor, e viu-nos passar, completamente desconfiado. E nu.
Antonelli, outro de nossos colegas, terminava de subir as escadas montado em sua alpaca presidencial, cumprimentando-nos com um aceno de cabeça, levantando o chapéu de vaqueiro e tocando a alpaca adiante. E nu, também. Enquanto eu e minhas meninas descíamos para nossa brilhante e maravilhosa festinha íntima, os rapazes estavam todos reunidos no escritório. E isso incluía uma fuinha.
- Mas o quê diabos aquelas meninas vão aprontar? – O Garcez perguntou, recostando-se na porta e olhando para o Biancardine, que continuava olhando fixamente seu monitor.
- Olha... envolve elas no trailer da Rocha, com álcool e sabe-se mais o quê. Mas saíram daqui chamando isso de “noite do pijama”.
- O QUÊ?!?! – Antonelli caiu de sua alpaca estrondosamente, surpreso com a informação. O que é raro pra um colunista daquele antro.
- Isso... Vai dar merda. – O Garcez pronunciou profeticamente. É claro que não precisa ser nenhum gênio pra se chegar a essa conclusão, mas daremos crédito ao pobre colunista nudista. Mas o simples fato de qualquer funcionário daquele escritório chegar a tal conclusão era algo, no mínimo, cataclísmico.
- Alguém aí falou em merda? – Anunciou-se a fuinha falante do Garcez, finalizando o assunto com aquele tipo de clímax desconfortável onde há um bêbado vendo pornô, um cara nu, outro de chapéu e botas de caubói e uma alpaca vestida de presidente numa mesma sala.
Paulo, o editor, pelo menos recebeu a primeira parte de meu conto naquela noite. Ao que tudo indica, no desenrolar de nossa noite inesquecível embebida de vodka e êxtase, eu e as garotas atiramos tijolos com frases eróticas pela janela do pobre coitado, e desaparecemos noite afora, em minha Máquina do Mistério.
O resto, meus amigos empaudurecidos e curiosos, lamento informar, mas só poderão saber na próxima quarta feira, seguindo a mania irritante que os bons escritores têm de deixar a melhor parte para um outro capítulo. Isso, é claro, se eu lembrar de alguma coisa depois desse porre fenomenal.
- Ah, oi Rocha! – Ela me cumprimentou com um sorriso simpático, acalentando meu pobre coração que antes revirava-se em ânsia e merda de lhama. Ou ele ou o meu estômago, nunca sei dizer.
- Alô. Eu estava passando por aqui e me lembrei que nem sequer dei as caras no Natal, e provavelmente farei o mesmo na virada do ano. Julguei que isso poderia ser importante pra alguém e vim conferir se não chateei ninguém. – E dei de ombros.
- Foda-se o Natal e essas merdas. – Foi tudo o que o Biancardine disse.
- Bem, não fizemos nada em especial, então, sem problemas. – Respondeu-me a Dutra, em concordância com a Losina.
- Poxa, nada? Certo, Natal é uma bosta, mas é sempre uma desculpa perfeita pra encher a cara e fazer merda em festinhas, sabem?
- É... não, não sabemos. – Losina pronunciou-se, seguida da Dutra. – E não bebemos também.
Biancardine revirou os olhos e completou com toda sua pompa, sensibilidade e estilo.
- Pff, maldita pureza e inocência cor-de-rosa. Pro inferno com elas. – Cuspiu de lado e virou um gole de Jack Daniels.
- VOCÊS NUNCA...?! Por Jah, que crime! – Eu clamei pelo deus da cultura rasta, perplexa. Me senti como um padre frustrado diante de uma questão nada ortodoxa de uma criança incrédula apontando na minha cara “onde está o seu deus?!”.
- Não precisa exagerar, Marina... – A Dutra falou em tom amistoso, levantando uma de suas sobrancelhas e cruzando os braços.
- Não, de fato. Mas vocês definitivamente precisam! – Guardei o revólver no bolso, convicta.
- O que quer dizer? – Losina encarou-me, tirando alguns doces muito suspeitos de dentro de sua mochila.
- Quero dizer que esse é o código Festa do Pijama. Faremos uma noitada, em honra ao Chanuka, as festas pagãs e ao incrível resultado da destilação de álcool!
- Ao Natal. – Losina corrigiu-me.
- Que seja! Vamos à noitada! – E abracei ambas as garotas pelos ombros, um tanto hesitantes. O que achei uma tolice, afinal... Elas teriam a mim, pijaminhas curtos, filmes variados, bebida de graça e uma noite inteira em claro em um trailer fora da jurisdição de 26 estados da América do Sul.
- De repente, eu comecei a ver vantagem no Natal. – Biancardine levantou-se, dando a impressão que gritaria algo como “dança do pênis” a qualquer instante. Fuzilei-o com o olhar e saquei meu revólver, o que o fez sacar o dele contra mim, em resposta.
- Você. Fica. Vá pro seu canto sujo, criatura imunda. – Acirrei o olhar negro para o rapaz, que parecia contrariado pela idéia de não estar incluído numa putaria em potencial.
Saí abraçada com as garotas, feliz e sorridente como criança em efeito de altas taxas de glicose no sangue. Elas pareciam encarar tudo como uma inocente reunião de colegas de trabalho. Mas era exatamente isso que eu precisava que elas pensassem. Mal sabiam que o diabo nos esperava. E que o inferno era pra lá de prazeroso, ao contrário do que aquele tal de livro sagrado e milenar parece querer cortar o barato.
No instante em quê passávamos pelo corredor, o Garcez, um dos colunistas que trabalham/moram/destroem o Contos de Bar saiu da sala de Paulo, o editor, e viu-nos passar, completamente desconfiado. E nu.
Antonelli, outro de nossos colegas, terminava de subir as escadas montado em sua alpaca presidencial, cumprimentando-nos com um aceno de cabeça, levantando o chapéu de vaqueiro e tocando a alpaca adiante. E nu, também. Enquanto eu e minhas meninas descíamos para nossa brilhante e maravilhosa festinha íntima, os rapazes estavam todos reunidos no escritório. E isso incluía uma fuinha.
- Mas o quê diabos aquelas meninas vão aprontar? – O Garcez perguntou, recostando-se na porta e olhando para o Biancardine, que continuava olhando fixamente seu monitor.
- Olha... envolve elas no trailer da Rocha, com álcool e sabe-se mais o quê. Mas saíram daqui chamando isso de “noite do pijama”.
- O QUÊ?!?! – Antonelli caiu de sua alpaca estrondosamente, surpreso com a informação. O que é raro pra um colunista daquele antro.
- Isso... Vai dar merda. – O Garcez pronunciou profeticamente. É claro que não precisa ser nenhum gênio pra se chegar a essa conclusão, mas daremos crédito ao pobre colunista nudista. Mas o simples fato de qualquer funcionário daquele escritório chegar a tal conclusão era algo, no mínimo, cataclísmico.
- Alguém aí falou em merda? – Anunciou-se a fuinha falante do Garcez, finalizando o assunto com aquele tipo de clímax desconfortável onde há um bêbado vendo pornô, um cara nu, outro de chapéu e botas de caubói e uma alpaca vestida de presidente numa mesma sala.
Paulo, o editor, pelo menos recebeu a primeira parte de meu conto naquela noite. Ao que tudo indica, no desenrolar de nossa noite inesquecível embebida de vodka e êxtase, eu e as garotas atiramos tijolos com frases eróticas pela janela do pobre coitado, e desaparecemos noite afora, em minha Máquina do Mistério.
O resto, meus amigos empaudurecidos e curiosos, lamento informar, mas só poderão saber na próxima quarta feira, seguindo a mania irritante que os bons escritores têm de deixar a melhor parte para um outro capítulo. Isso, é claro, se eu lembrar de alguma coisa depois desse porre fenomenal.
![]() |
| Um brinde à melhor noite de nossas vidas! |










Nenhum comentário:
Postar um comentário