30 de dezembro de 2010

Uma Tosca Experiência Extra-Corpórea Entre Perus-Rosas e Homens-Pombas

- Resumindo, Carlito, é por isso que não ponho meus pés nas Filipinas, assim como disseram os Beatles. – disse ao meu amigo mexicano, que comia uma longa e bem recheada baguete no assento ao meu lado. Estávamos num carro estacionado em um beco observando a movimentação da cidade para passar o tempo, como os policiais costumam fazer nos filmes.
- Entiendo. – disse ele, regurgitando um pedaço de bacon e ingerindo-o novamente logo em seguida.
- Enfim... É curioso observar as pessoas apressadas na rua, não acha? O Larry adora, costumamos passar horas assim... Mas hoje tive de deixar ele no veterinário, para examinar umas propriedades estranhas e de textura esquisita que vinha encontrando em suas fezes. Aliás, esse foi o único motivo de tê-lo chamado, você é meu amigo reserva.
- Puto.
- Eu também te amo.
- Ei! Vocês dois aí! – disse um dos dois policiais que chegaram carregando rosquinhas – O que estão fazendo na nossa viatura?
- Merda! – disse, então rapidamente acelerei o carro, apertei meu cinto, virei à viatura pela calçada quase atropelando os dois policiais e mais uma velhinha que atravessava a rua, e então disparei pela avenida ligando a sirene.

Uma perseguição, quatro horas, três pneus furados, uma bomba de fumaça, dois postes derrubados e uma traição depois, eu estava são e salvo me misturando no meio da multidão, enquanto Carlito era preso por extravio de uma viatura policial seguido de perseguição, acidentes de trânsito e destruição de patrimônio histórico (nunca gostei daquela estátua do prefeito, mesmo). E pelo visto, ele seria deportado também, pobre imigrante. Cheio de culpa e decidido a fazer algo para ajudá-lo, fiz meu caminho ao pub mais próximo, desci as escadas rústicas e me sentei no balcão, pedindo por uma boa dose de chá gelado. Fiquei lá até todo aquele sentimento altruísta passar e eu perceber que não tinha um tostão no bolso, afinal, ainda não havia achado um segundo emprego.

- Com licença, vou ao toalete. – disse, me retirando em direção ao banheiro.
- Não, não, não. – disse o taberneiro, me apontando um rifle – Já escutei essa antes, e pra sua informação, as janelas do banheiro estão lacradas.
- Maldição! – disse, me sentando novamente. – Então... Como podemos negociar?
- Bem, falando assim... – ele me olhou com um sorriso que realmente me perturbou e me fez preferir ter levado um tiro de rifle no momento.

“Já que você tocou no assunto, consigo pensar numa forma para me pagar, JEJEJEJE”


Taquei um “foda-se” na vida e estourei uma de minhas bombas caseiras em cima do balcão entre nós dois, e em seguida, ao contrário do esperado, tudo que vi não foi um branco, mas sim uma mistura de fumaça, fogo, pedaços de madeira e carne voando e muitos gritos. Só então, veio o branco.

Quando dei por mim, estava deitado em cima de galhos secos e vegetação morta, o que não fazia muito sentido, já que antes eu estava no meio da cidade. O quê não fazia mais sentido porém era o céu vermelho e a lua negra, aquilo sim me parecia estranho. Ou drogado.

- Mas que inferno...?
- “Inferno” é a palavra certa, Antonelli. – ouvi uma voz nas minhas costas particularmente desagradável arranhando meus ouvidos. Quando me virei, me deparei... Com um flamingo. – Ei, do quê você está rindo?
- Ahahaha, me desculpe! – disse, me controlando – Eu esperava sei lá, encontrar um demônio, ou um esqueleto, ou uma sombra, ou pelo menos aquele gato! Mas um flamingo foi... Foi genial! Ahahaha!
- Um flamingo? É assim que você me vê?? – disse o flamingo, remexendo suas penas – Sou o Guardião do 7º Círculo do Inferno, para onde vão as pessoas que venderam suas almas, e você devia me ver de acordo com seu pior pesadelo! A pior imagem que sua mente jamais conseguiria imaginar! Você devia estar aterrorizado!!!
- O quê diabos um FLAMINGO tem pra me assustar? – respondi, zombeteiro.
- Me diga você! – vociferou a ave rosa-salmão, impaciente – Eu sou seu pior pesadelo!
- Pelo amor de Deus! – respondi, continuando minhas blasfêmias e trocadilhos – Você é um flamingo! Não é o pesadelo de ninguém!
- Que seja!!! Antonelli, você vendeu sua alma! Isso que vê é uma prévia, uma pequena amostra do que sofrerá quando você morrer!
- Poxa! – disse, chateado – Sem spoilers, né? Agora que eu já sei como é o lugar, que graça vai ter?
- Não é para ter graça! Aqui é o inferno!!!
- Além do mais, - continuei, ignorando o pato deformado – você acabou de me dizer que isso é apenas uma prévia e que eu não estou morto, então já estou aliviado quanto a minha única preocupação, seu estraga-prazeres. Mas de qualquer modo, preferiria estar morto mesmo a ter continuado a cena com aquele barman.
- Muito bem, não quero saber! Agora, me ouça, Antonelli, pois o que vou lhe dizer é o quê você passará quando chegar a tua hora! Bwahahaha!!! – riu malignamente o pássaro rosado – Para começar, passaremos esse gancho pelas suas entranhas, te mantendo suspenso enquanto pingamos magma derretido em seus mamilos, e então quando seus ossos estiverem expostos... Ei! O quê você está fazendo?
- Tirando essas calças, está infernalmente quente aqui. – justifiquei, dando uma piscadinha.
- VOCÊ VAI SOFRER, SUA DESGRAÇA HUMANA!!! – gritou, abrindo suas pequenas asas - Consegue fazer idéia do quanto você vai sofrer aqui embaixo? Sua alma jamais terá descanso! E tudo isso porque aceitou vendê-la ao Diabo por... Por... O quê você pediu em troca mesmo?
- Amizade. – respondi.
- HAHAHA!!! – gargalhou comicamente o peru de pescoço e pernas compridas – Amizade! Podia ter qualquer coisa em troca, e pediu por algo tão ridículo! Ahahaha... Não consigo acreditar... E pela amizade de quem, posso saber, seu pedaço de escória?
- Ah, pela amizade do capeta.
- ... Como é que é?
- Sabe como é, quando eu chegar aqui, seremos melhores-amigos.
- Você pediu... Pela amizade... Do próprio satã?
- Uhum, vai ser divertido o que faremos juntos por aqui. – sorri maniacamente.
- Ugh... – pensou o tal guardião flamingo – Pensando bem, amizade é um sentimento nobre e etecétara, acho que com isso consigo uma desculpa para te mandar pro céu, bem longe daqui e de mim.
- Ah, qualé! – protestei - Mas eu não...
- VENDES-TE TUA ALMA POR UM AMIGO, JOVEM MORTAL SEM CALÇAS! – proclamou com aquela voz aguda e flamingada – E por isso, será perdoado pelos teus pecados! Agora, está livre da eterna sina e agonia, desde que se mantenha correto. Mas eu espero que tenha uma vida muito desagradável, e suma da minha frente para que eu deixe de ser esse flamingo ridículo!

Quando dei por mim, estava acordando na sala de um hospital, apenas com ferimentos e queimaduras leves. Ao que pude perceber, o tal taberneiro com sérias tendências homossexuais estava na cama ao lado, muito mais ferido e sem um braço. Ao redor dele, pude notar um padre, um médico, duas enfermeiras, e o que supus serem alguns familiares chorosos. Quando ia me levantar, o braço de alguém me segurou, me pedindo para continuar deitado. Olhei para a pessoa, e notei algo de estranho nela logo de cara.

- Porra, você tem asas. Qual o seu problema? – observei sinceramente.
- Seja mais educado, Antonelli, eu sou...
- Puta que o pariu! – reclamei – Será que não posso conhecer uma pessoa que já não saiba meu sobrenome antes de se apresentar??
- Escuta aqui, eu sou seu Anjo da Guarda, e estou aqui para ajudá-lo a manter seu lugar reservado no paraíso!
- Aé? E qual o seu nome, suposto anjo?
- Sou um Anjo do Senhor, meu nome não importa...
- Claro que importa! É justo que se apresente também.
- ... Já me apresentei, meu nome é desnecessário.
- Ué, e aquele papo de se orgulhar do nome que Deus te deu e tudo mais?
- Susan! Meu nome é Susan. Satisfeito?
- SUSAN? HAHAHAHA!!! Cadê o seu Deus agora? – gargalhei, e minha barriga doeu um pouco – Ai, ai, ai... Ahahaha...
- Já terminou?
- Ai, ai... Ahaha... – enxuguei minhas lágrimas - Pronto, parei.
- Agora, preste atenção... Você pecou muito em sua vida, Antonelli.
- Fuck yeah. – acrescentei.
- E tem alguns assuntos inacabados com os quais precisa se redimir para não correr o risco de perder seu lugarzinho em paz no céu.
- Caralho, concorrido esse tal de paraíso, não?
- O empreendimento vem se valorizando desde a quebra da bolsa, de fato, mas isso não vem ao caso. Está vendo o taberneiro a quem feriu no seu quase suicídio ali ao lado?
- Aquele que tentou me molestar? Tô sabendo.
- Vai ter que se desculpar com ele, a família dele, pagar sua dívida e ajudá-lo a se recuperar como puder.
- Hmmm. Justo, prossiga.
- Lembra do Carlito, o guarda de trânsito mexicano que você amarrou ao carro roubado enquanto fugia e que foi preso no seu lugar?
- Bastava dizer o nome dele que eu ia lembrar, não precisava descrever tudo isso!
- Pois então. – prosseguiu o anjo Susan – Terá de se entregar à polícia, libertando-o e aceitando sua pena, e após cumpri-la, ajudar para que ele volte ao país.
- Que rolê, hein? Mas faz sentido, se tratando de ir para o céu...
- E por último... – fez uma pausa dramática.
- Desembucha, homem-pomba. – disse impaciente.
- Terá que largar o Heavy Metal, e um pouco do Hard Rock também. Já leu as letras daquele tal de AC DC? São uma apologia ao inferno!!
- ... Largar o rock’n’roll... Entendi. Algo mais?
- Isso é tudo.
- E com isso não irei pro inferno?
- Exatamente. – concluiu o anjo.
- Pois bem. – me levantei.
- Espere! Não precisa começar agora, descanse e...
- Você pode desistir de mim, Susan, because I’m on the Highway to Hell, bitch! – respondi enquanto pulava de minha cama para cima do taberneiro enfaixado, chutava o padre e exibia eróticamente minha genitália para as enfermeiras.
- O quê você está fazendo? Está louco??? – dizia o tal anjo, assim como as outras pessoas naquela sala.
- Eu posso perder minha mulher, minha mãe, posso perder até o meu cachorro! – disse, orgulhoso - Desde que eu tenha o rock’n’roll!!
- ... Você não tem uma mulher. E nem um cachorro. – observou Susan.
- Foi uma referência, mas deixa pra lá. E saí correndo do hospital, tinha muito a que pecar para garantir de volta meu lugar depois da morte torturando um certo Flamingo Infernal aí. Ouvi dizer pelo meu colega Garcez que carne de flamingo é melhor que a de frango.
- Gostei da atitude dele. – pensou o anjo – Talvez eu devesse mudar de nome e aproveitar a vida assim também, afinal, o que é que tem de errado em fazer as coisas do próprio jeito, sem me passar por tolo dos outros? Nunca gostei de seguir alguém que me deu um nome de viadinho desses!!! – e então, Susan se corrompeu, “caindo” e me acompanhando em minha revolta com alguns drinks em algum pub que não estivesse em pedaços. Ainda.

Imagino que essa será a cara que o tal guardião rosa fará quando me ver de novo.

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