Empurrando a última mala para dentro do mísero porta-malas dei dois tapinhas amigáveis na traseira do meu carro. Fiz um breve aquecimento antes de entrar no New Beetle, me preparando para atravessar as estradas de três estados na véspera do Ano-Novo. Antes de ligar o motor bebi uma latinha de energético altamente eficaz (fato que eu viera a descobrir tardiamente). Peguei os fones do iPod e deixei músicas aleatórias tomarem conta de meus ouvidos. Deixei meus óculos habituais descansarem no topo da minha cabeça, e me muni com óculos escuros para evitar um confronto com minha arquiinimiga, aquela bolinha incandescente e irritante que pairava sobre o céu de poucas nuvens.
A viagem transcorria tranqüilamente, com exceção do pequeno incidente envolvendo uma família interiorana e com fortes tendências ao fanatismo religioso e me fizera parar durante uma blitz de quase duas horas porque achava a música que eu cantava em um tom excessivamente agudo e demonstrando total falta de harmonia - Happy New Year, do Abba - pecaminosa. Eu estava focada demais em chegar a tempo para celebrar a chegada de 2011 com pessoas que não iriam me oferecer doces suspeitos ou explodiriam bombas de lacrimogêneo sobre o meu rosto para perceber que a imensidão azul-turquesa que se estendia acima da minha cabeça mudava drasticamente.
As nuvens multiplicaram-se e sua cor branca foi substituída por um cinza-grafite, que ameaçava transformar-se em preto a qualquer momento. A detestável fonte de calor havia sumido sem deixar um único raio de esperança da volta. A atmosfera, antes seca, agora era confortavelmente úmida, prenunciando a chegada da chuva. Ela abateu-se sobre mim e meu companheirinho, além de castigar a plantação que margeava a estrada do lado esquerdo.
Troquei rapidamente de óculos e encarei o horário no painel do carro. Mordendo o lábio inferior, percebi que não alcançaria o meu destino final caso o fizesse por meios ponderados.Transgredindo toda e qualquer regra de trânsito sobre direção segura, especialmente durante um dia chuvoso, e pisei cegamente no acelerador.
O primeiro relâmpago ribombou no céu escuro, omitindo um som de algo sendo quebrado. Era o meu pára-brisa, que resolvera não funcionar num dos poucos momentos em que eu realmente precisava dele. Me curvei sobre o volante, tentando distinguir o mato ao meu lado do asfalto.
As gotas de chuva cada vez mais grossas e numerosas batiam com força contra os vidros parcialmente abertos. Tirei os olhos do meu turvo destino por um segundo – tentando encontrar o maldito botão que fechava as janelas – quando aquilo aconteceu.
Estava no final de em uma curva especialmente fechada quando percebi que os pneus não obedeciam ao volante e deslizei sobre a pista escorregadia até avistar uma lata de lixo e algo felpudo em cima e perceber que eu rumava diretamente para ela. Com o pouco controle que me restava do veículo, desviei da lata por muito pouco e cai num barranco. Permaneci alguns segundos em silêncio por alguns minutos, ouvindo os pingos furiosos contra as janelas, os olhos cerrados, uma das mãos no volante e a outra protegendo a cabeça.
Girei a chave do carro, produzindo um ruído no motor. Girei novamente, e nada. Suspirei, me jogando contra o banco. Abri a porta, pondo um pé para fora e em seguida afundando-o na terra molhada. Com dificuldade, me afastei dali e cheguei à conclusão de que os pneus estavam soterrados de lama e que eu teria de esperar o fim da chuva para me mover dali. Chutei um montinho de terra, meu sapato ficando preso naquele barro denso, meu pé experimentando o ar noturno e tempestuoso.
Sentindo que esquecera algo, voltei meus olhos para o que meus olhos míopes entendiam como um pontinho cinza. Tirei o outro sapato e caminhei descalça em direção a lata de lixo enferrujada até perceber que a bola de pelos que se equilibrava era um felino, que tava boa parte do rosto com as patinhas encharcadas.
Não era muito simpatizante da espécie (os gatos ultra-sônicos da minha vizinha e o gato megalomaníaco da Júlia são exemplos vivos disso), mas o pobre bicho estava sozinho e quase dentro de uma lata do lixo, não que eu estivesse em melhores condições. Após algumas tentativas, escalei o barranco com as mãos nuas, jogando punhados de terra para o alto ao som das nada aconchegantes descargas elétricas.
O gato deixou as patinhas descansarem ao lado do corpo cinzento e seus olhos amarelos se fixaram em mim, de um jeito penetrante e levemente zombador, como se ele estivesse desapontado com algo. Devia ser só impressão de uma mente atormentada pela cafeína. Eu não podia ignorar a deprimente criaturinha com tendências a ironia e olhar demoníaco. Desci o barranco, revirando uma bolsa térmica e meu porta-malas.
Me sentei ao lado da lata e o felino juntou-se a mim, ronronando. Abri um pequeno guarda-chuva e o gato aconchegou-se embaixo dele, olhando fixamente para mim, que resolvera não desfrutar do parco refugio oferecido pelo objeto. Eu havia cortado a latinha do energético e a enchera com leite de soja frio e estendi-o para a bola de pelos.
- É o que temos, amigo.
O felino, desconfiado, cheirou a latinha e sorveu o leite todo.
- Estava bom até. Tem mais? – ele perguntou. O gato perguntou.
Sob protestos de “Como você ousa tocar suas mãos imundas em mim, mortal?” e “Me solte imediatamente!” ergui-o até a altura dos olhos.
- Eu conheço você! – eu disse, triunfante. – Você é o gato complexado da Marina que acha que é Satã!
- Eu não acho, eu sou! E como você, uma mera e insolente mortal, ousa se dirigir a mim dessa forma e tocar no meu ser sem permissão! – ele balançou o rabo no ar.
- Calminha, Devil Kitty. – tratei de largá-lo antes que algo pior acontecesse. Maldita boca.
- Devil Kitty?
- É fofo e demoníaco, assim como você, além de que eu ainda sinta de um toque “deprimente” para que o nome realmente ficasse perfeito.
- Enfim, você está aqui por um motivo. Eu vi seus sonhos, seus pensamentos mais secretos e perturbadores, e eu sei o que esse seu coraçãozinho corrompido quer.
- Roupas secas, óculos limpos e lentilha?
- Não. Eu sou aquele que pode fazer todos esses desejos ocultos se tornarem realidade, contanto que me venda sua alma em troca. Uma troca razoável, não concorda?
- Discordo em todos os sentidos. Sabe, bichano, você pode até ter enganado alguns dos meus colegas, mas você está lidando com uma comerciante nata. – minha modéstia estava a alguns quilômetros atrás, de fato. – Você não tem nada que eu queira a me oferecer. Fama, dinheiro, eternidade, são todos conceitos carregados de mais malefícios do que vantagens. A não ser que você possa me levar até o meu destino.
- Não duvide de forças que estão além da sua compreensão, sua presunçosa. – ele disse, e pude perceber que o número de raios aumentava dado o estado de humor do bichinho.
- O que você disser, Fluffy Foots, o que você disser. – o gato me fuzilou e eu ri diabolicamente, ironias a parte. – Mas você não percebe, não é? Logo, quem “deve” algo aqui é você.
- Explique-se.
- Simples. Eu desviei da lata de lixo, impedindo a sua morte instantânea e/ou evitando que você fosse arremessado para algum ponto longínquo da estrada, correndo o risco de ser atropelado por um caminhão. Como se não bastasse, antes de reconhecê-lo, eu o alimentei e dei abrigo – eu apontei para o guarda-chuva – sem cobrar nada em troca. Logo, você está em divida comigo.
- O que propõe, então?
- Que me leve ao meu destino inicial sem taxas adicionais, almas não inclusas.
- Se fosse uma cidade vizinha ou até a fronteira a tarefa era fácil, mais do que isso está fora do meu alcance.
- Pff, é claro que não pode, para o demônio em forma felina você deve estar com os poderes reduzidos ou coisa que valha. – cruzei os braços, irritada com a falta de profissionalismo do Belzebu. – Que outras ofertas você tem?
- Bem...- o bichano franziu de leve a boca, fazendo os finos fios ao redor dela se mexerem graciosamente. – Posso levá-la até um local “seguro” – e eu podia jurar que vi seus dentes cintilarem. – No qual você pode trocar de roupa e beber algo que aquece essa sua carcaça fria. – ele se afastou do meu corpo anormalmente gelado e úmido. – Me siga. – ele deu meia volta e com um pulo desajeitado desceu o barranco.
Segui o felino até um trailer familiar e azul. Devil Kitty miou alto para a Máquina de Mistério, até sua dona aparecer numa das janelas, com o meu presente de natal – um Glock 18 – e uma garrafa quase vazia de vodka em mãos.
- Victória! Mike! – ela disse, nos guiando para dentro da casa/veículo. Assim que entramos, Marina estendeu dois cálices de tamanhos diferentes para nós dois com líquidos avermelhados e de procedência duvidosa. Bebemos o que fosse aquilo, que fez meus olhos arder e o felino pronunciar palavras de baixo calão em algo que eu acredito ser russo.
- Sabe - começou Mike, que eu recém descobrira ser o verdadeiro nome do temido anjo caído. – Até que, para um mortal, você sabe barganhar. O que acha de se tornar minha mais nova e única sócia nesse revigorante empreendedorismo da venda de almas.
- Muito lisonjeada, Sr. Capeta. Aceito sua oferta. Só precisamos acertar os detalhes referentes ao pagamento.
- Certamente. – disse o felino, se jogando em uma almofada no chão e ronronando. Ele levantou a taça vazia, eu repeti o gesto, e brindamos ao início de uma longa e produtiva parceria.
A viagem transcorria tranqüilamente, com exceção do pequeno incidente envolvendo uma família interiorana e com fortes tendências ao fanatismo religioso e me fizera parar durante uma blitz de quase duas horas porque achava a música que eu cantava em um tom excessivamente agudo e demonstrando total falta de harmonia - Happy New Year, do Abba - pecaminosa. Eu estava focada demais em chegar a tempo para celebrar a chegada de 2011 com pessoas que não iriam me oferecer doces suspeitos ou explodiriam bombas de lacrimogêneo sobre o meu rosto para perceber que a imensidão azul-turquesa que se estendia acima da minha cabeça mudava drasticamente.
As nuvens multiplicaram-se e sua cor branca foi substituída por um cinza-grafite, que ameaçava transformar-se em preto a qualquer momento. A detestável fonte de calor havia sumido sem deixar um único raio de esperança da volta. A atmosfera, antes seca, agora era confortavelmente úmida, prenunciando a chegada da chuva. Ela abateu-se sobre mim e meu companheirinho, além de castigar a plantação que margeava a estrada do lado esquerdo.
Troquei rapidamente de óculos e encarei o horário no painel do carro. Mordendo o lábio inferior, percebi que não alcançaria o meu destino final caso o fizesse por meios ponderados.Transgredindo toda e qualquer regra de trânsito sobre direção segura, especialmente durante um dia chuvoso, e pisei cegamente no acelerador.
O primeiro relâmpago ribombou no céu escuro, omitindo um som de algo sendo quebrado. Era o meu pára-brisa, que resolvera não funcionar num dos poucos momentos em que eu realmente precisava dele. Me curvei sobre o volante, tentando distinguir o mato ao meu lado do asfalto.
As gotas de chuva cada vez mais grossas e numerosas batiam com força contra os vidros parcialmente abertos. Tirei os olhos do meu turvo destino por um segundo – tentando encontrar o maldito botão que fechava as janelas – quando aquilo aconteceu.
Estava no final de em uma curva especialmente fechada quando percebi que os pneus não obedeciam ao volante e deslizei sobre a pista escorregadia até avistar uma lata de lixo e algo felpudo em cima e perceber que eu rumava diretamente para ela. Com o pouco controle que me restava do veículo, desviei da lata por muito pouco e cai num barranco. Permaneci alguns segundos em silêncio por alguns minutos, ouvindo os pingos furiosos contra as janelas, os olhos cerrados, uma das mãos no volante e a outra protegendo a cabeça.
Girei a chave do carro, produzindo um ruído no motor. Girei novamente, e nada. Suspirei, me jogando contra o banco. Abri a porta, pondo um pé para fora e em seguida afundando-o na terra molhada. Com dificuldade, me afastei dali e cheguei à conclusão de que os pneus estavam soterrados de lama e que eu teria de esperar o fim da chuva para me mover dali. Chutei um montinho de terra, meu sapato ficando preso naquele barro denso, meu pé experimentando o ar noturno e tempestuoso.
Sentindo que esquecera algo, voltei meus olhos para o que meus olhos míopes entendiam como um pontinho cinza. Tirei o outro sapato e caminhei descalça em direção a lata de lixo enferrujada até perceber que a bola de pelos que se equilibrava era um felino, que tava boa parte do rosto com as patinhas encharcadas.
Não era muito simpatizante da espécie (os gatos ultra-sônicos da minha vizinha e o gato megalomaníaco da Júlia são exemplos vivos disso), mas o pobre bicho estava sozinho e quase dentro de uma lata do lixo, não que eu estivesse em melhores condições. Após algumas tentativas, escalei o barranco com as mãos nuas, jogando punhados de terra para o alto ao som das nada aconchegantes descargas elétricas.
O gato deixou as patinhas descansarem ao lado do corpo cinzento e seus olhos amarelos se fixaram em mim, de um jeito penetrante e levemente zombador, como se ele estivesse desapontado com algo. Devia ser só impressão de uma mente atormentada pela cafeína. Eu não podia ignorar a deprimente criaturinha com tendências a ironia e olhar demoníaco. Desci o barranco, revirando uma bolsa térmica e meu porta-malas.
Me sentei ao lado da lata e o felino juntou-se a mim, ronronando. Abri um pequeno guarda-chuva e o gato aconchegou-se embaixo dele, olhando fixamente para mim, que resolvera não desfrutar do parco refugio oferecido pelo objeto. Eu havia cortado a latinha do energético e a enchera com leite de soja frio e estendi-o para a bola de pelos.
- É o que temos, amigo.
O felino, desconfiado, cheirou a latinha e sorveu o leite todo.
- Estava bom até. Tem mais? – ele perguntou. O gato perguntou.
Sob protestos de “Como você ousa tocar suas mãos imundas em mim, mortal?” e “Me solte imediatamente!” ergui-o até a altura dos olhos.
- Eu conheço você! – eu disse, triunfante. – Você é o gato complexado da Marina que acha que é Satã!
- Eu não acho, eu sou! E como você, uma mera e insolente mortal, ousa se dirigir a mim dessa forma e tocar no meu ser sem permissão! – ele balançou o rabo no ar.
- Calminha, Devil Kitty. – tratei de largá-lo antes que algo pior acontecesse. Maldita boca.
- Devil Kitty?
- É fofo e demoníaco, assim como você, além de que eu ainda sinta de um toque “deprimente” para que o nome realmente ficasse perfeito.
- Enfim, você está aqui por um motivo. Eu vi seus sonhos, seus pensamentos mais secretos e perturbadores, e eu sei o que esse seu coraçãozinho corrompido quer.
- Roupas secas, óculos limpos e lentilha?
- Não. Eu sou aquele que pode fazer todos esses desejos ocultos se tornarem realidade, contanto que me venda sua alma em troca. Uma troca razoável, não concorda?
- Discordo em todos os sentidos. Sabe, bichano, você pode até ter enganado alguns dos meus colegas, mas você está lidando com uma comerciante nata. – minha modéstia estava a alguns quilômetros atrás, de fato. – Você não tem nada que eu queira a me oferecer. Fama, dinheiro, eternidade, são todos conceitos carregados de mais malefícios do que vantagens. A não ser que você possa me levar até o meu destino.
- Não duvide de forças que estão além da sua compreensão, sua presunçosa. – ele disse, e pude perceber que o número de raios aumentava dado o estado de humor do bichinho.
- O que você disser, Fluffy Foots, o que você disser. – o gato me fuzilou e eu ri diabolicamente, ironias a parte. – Mas você não percebe, não é? Logo, quem “deve” algo aqui é você.
- Explique-se.
- Simples. Eu desviei da lata de lixo, impedindo a sua morte instantânea e/ou evitando que você fosse arremessado para algum ponto longínquo da estrada, correndo o risco de ser atropelado por um caminhão. Como se não bastasse, antes de reconhecê-lo, eu o alimentei e dei abrigo – eu apontei para o guarda-chuva – sem cobrar nada em troca. Logo, você está em divida comigo.
- O que propõe, então?
- Que me leve ao meu destino inicial sem taxas adicionais, almas não inclusas.
- Se fosse uma cidade vizinha ou até a fronteira a tarefa era fácil, mais do que isso está fora do meu alcance.
- Pff, é claro que não pode, para o demônio em forma felina você deve estar com os poderes reduzidos ou coisa que valha. – cruzei os braços, irritada com a falta de profissionalismo do Belzebu. – Que outras ofertas você tem?
- Bem...- o bichano franziu de leve a boca, fazendo os finos fios ao redor dela se mexerem graciosamente. – Posso levá-la até um local “seguro” – e eu podia jurar que vi seus dentes cintilarem. – No qual você pode trocar de roupa e beber algo que aquece essa sua carcaça fria. – ele se afastou do meu corpo anormalmente gelado e úmido. – Me siga. – ele deu meia volta e com um pulo desajeitado desceu o barranco.
Segui o felino até um trailer familiar e azul. Devil Kitty miou alto para a Máquina de Mistério, até sua dona aparecer numa das janelas, com o meu presente de natal – um Glock 18 – e uma garrafa quase vazia de vodka em mãos.
- Victória! Mike! – ela disse, nos guiando para dentro da casa/veículo. Assim que entramos, Marina estendeu dois cálices de tamanhos diferentes para nós dois com líquidos avermelhados e de procedência duvidosa. Bebemos o que fosse aquilo, que fez meus olhos arder e o felino pronunciar palavras de baixo calão em algo que eu acredito ser russo.
- Sabe - começou Mike, que eu recém descobrira ser o verdadeiro nome do temido anjo caído. – Até que, para um mortal, você sabe barganhar. O que acha de se tornar minha mais nova e única sócia nesse revigorante empreendedorismo da venda de almas.
- Muito lisonjeada, Sr. Capeta. Aceito sua oferta. Só precisamos acertar os detalhes referentes ao pagamento.
- Certamente. – disse o felino, se jogando em uma almofada no chão e ronronando. Ele levantou a taça vazia, eu repeti o gesto, e brindamos ao início de uma longa e produtiva parceria.

Eu, me preparando para selar o acordo com a bebida inusitada








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